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“ Conversas com Rosto ” com Eunice
MuñozA actriz Eunice Muñoz, de 84 anos, foi a convidada, desta terça-feira, de "Conversas com Rosto", uma iniciativa com o encenador João Mota, que dirige actualmente a instituição e , no âmbito do projecto Teia, "pretende-se abordar alguns dos momentos mais marcantes do percurso de vida e profissional da actriz".
“É uma mulher ao espelho; prepara-se
Para atravessar o deserto antes de entrar
Em cena.Não sei de solidão maior,
Já na infância o medo era o meu diadema,
Tremia sempre antes de me atirar do muro
Sobre o montão de folhas secas; afinal
Eram tão maternais as mãos do ar
Sobre o meu corpo tão inocente ainda;
Mas ignorar é outra forma de saber,
Agora ia ser outra mulher, amar
O poder, pôr na cabeça uma coroa,
Sentir o cheiro do sangue até à náusea,
Cuspir a vida por não poder suportá-la.
Por fim, trémula ainda, regressará à sua
Solidão, á poeira dos dias luminosos,
Já sem receio de saltar sobre as folhas
Secas – há tantos, tantos, tantos anos.”
Foi com este poema de Eugénio de Andrade que João
Mota deu as boas vidas à conceituada actriz portuguesa.
Com sete décadas dedicadas à representação, Eunice Muñoz é a maior referência do teatro português, sendo a personificação de grande parte da história e dos teatros portugueses.
Com memórias muito vivas e saudosas, Eunice Muñoz
fez um regresso ao passado para lembrar a sua origem e descendência, falou sobre
os avós e o encontro dos seus pais. “A minha avó Carmo era uma actriz
extraordinária. Fixei-a desde miúda. Era um caso de talento tanto dramático como
cómico” conta e continua “A minha mãe tinha um interesse muito
grande por tudo o que envolvia cultura e não tinha paciência para o rapaz de
circo, que viria a ser o meu pai”.
Descendente de uma família muito rica em termos
culturais e na área da representação, vem para Lisboa com sete anos e estreia-se
em 1941, precisamente no Teatro Nacional D. Maria II, com a peça “Vendaval” e
rapidamente o seu talento foi reconhecido e apontado por João Villaret.
Aguardou até aos quatorze anos para entrar no Conservatório que terminou com dezassete anos.
Lembrou Luís Piçarra que dizia “Tem uma
voz pequenina mas muito afinada! E dedico estas palavras à minha querida
Simone.” Referindo-se a Simone de Oliveira que se encontrava entre os
presentes, entre muitas outras figuras públicas, mas acima de tudo amigos,
colegas e companheiros de Eunice Muñoz.
Com a ausência de trabalho no teatro conta que
teve de ir trabalhar atrás de um balcão “E era mesmo muito difícil,
muitas horas de pé.” E foi na fábrica de cabos eléctricos que conheceu
o seu segundo marido com quem teve quatro filhos.
João Mota, fez referência à parte da comédia na
vida de Eunice Muñoz, foram mencionadas peças como “Direitos da mulher”,
“Deliciosamente louca” e “Circo voador”.
“Direitos da mulher” esteve no Rivoli em 1962 e esgotou todos os dias.
A sua passagem pela televisão também foi lembrada,
comentou “ Verdadeiramente a única coisa que gosto de fazer é teatro e
depois faço uma adaptação para a televisão.”
Sobre a Rádio “Que saudades! Já não se
faz! Recordo aquela porta que fazia tudo.” Disse entre risos
saudosos.
Outro ponto de referência foi a sua passagem por
África em Angola e Moçambique com a peça “Os dois do baloiço”.
Foi tempo para lembrar o problema que foi exibir a peça devido à censura, “Para África não podíamos levar nada que não fosse censurado daqui e depois lá quiseram censurar de novo.” A peça foi reduzida a um terço. “Fomos muitos protegidos pela imprensa, em Luanda”
Referindo-se ao 25 de Abril, diz que
“Estes jovens são felizardos, não fazem ideia nenhuma do que sofremos,
era uma época terrível mas vivíamos com o prazer de ultrapassar o perigo fazendo
comédia.”
Do público ouvimos um encenador que completou “Demos a volta à censura, com dezassete ensaios gerais, com público.”
Lisboa e Porto foram cidades que estiveram em
destaque na vida de Eunice Muñoz, mas “O Porto é uma das cidades do meu
coração, não tem nada a ver com Lisboa.”
Falou ainda muito orgulhosa da sua neta que segue
os seus passos no teatro “Ela tem muito talento. É o
futuro!”
Quando se passou a palavra ao público,
questionaram que conselhos é que deixaria aos jovens actores que pretendem
trilhar o caminho da representação, prontamente com muito rigor respondeu
“Trabalhar muito. É uma profissão cruel que dá lugar a muito pouco. É
muito sacrificada, sofre-se muito, muito. É preciso muita paixão! De outra
maneira não é possível. É preciso amar muito esta profissão que toma conta de
tudo, não dá direito para muitas coisas. Não te quero iludir tens de gostar
muito.”
Como seria de esperar foi uma conversa muito
serena, passeou-se pela história de vida da actriz, muito rica e que abraça o
conteúdo histórico das salas de teatro de todo o país.
Em 2010 foi elevada a Grande-Oficial da Ordem
Militar de Santiago da Espada , “Ela significa o exemplo, tem uma alma
muito grande” concluíu João Mota.
Sendo uma parte importante da história do teatro
português Eunice Muñoz terminou dizendo “Valeu a pena, tive grandes
compensações. Quanto mais se envelhece, mais perto estamos de toda a gente. Faço
o possível para nada me escapar. É uma experiência de vida que aparece a todo o
momento. Acho que envelhecer não é caso para se ficar triste! Deixo ao minha
compreensão ao serviço de toda a gente. Estou feliz como estou!”
Estas palavras valeram uma grande ovação em pé do
público.
Actualmente a artista faz parte do elenco da
telenovela de "Destinos Cruzados" da TVI. Eunice Muñoz contracena com actores
como Ruy de Carvalho, Alexandra Lencastre, Pedro Lima, Sofia Alves e também
Marina Mota.
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