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O casal de artistas, ele tipógrafo, ela linguista,
criaram uma nova linguagem, um novo entendimento do mundo.
Angela Detanico e Rafael Lain são uma dupla muito viajada, de origem brasileira, que vive e trabalha em Paris. Começaram a mostrar os seus trabalhos em 2001 e, em 2007, representaram o Brasil na 52ª Bienal de Veneza.
“Amplitude” é fruto de um trabalho de
experimentações, cálculos, observando aquilo que nos rodeia.
Agora em Lisboa, os artistas tiveram de adaptar as suas obras à capital portuguesa. Assim como fazem sempre que expõem noutros países, é um exercício que mostra o carácter inovador das instalações que criam e que nunca são vistas da mesma forma. São mutáveis de acordo com a posição geográfica dos seus visitantes.
Se à primeira vista pensar que as obras são
aleatórias e que não fazem sentido, desengane-se.
Angela e Rafael escrevem o seu próprio código-morse e brincam com o alfabeto, com a arquitectura criada pelas linhas. “Uma composição visual abstracta, subitamente transforma-se numa frase”, explica o director artístico, Pedro Lapa.
É o que acontece por exemplo na obra "Two Voices"
(textos), onde várias folhas expostas na parede apresentam um texto de vários
autores, e partindo de Copérnico e Galileu, os dois brasileiros decidiram
questionar a ciência.
A superfície da folha é dividida em 1440 caracteres, correspondentes aos minutos de um dia. Um texto para o Sol está escrito em caracteres regulares e corresponde aos minutos em que o Sol está no céu, e o texto para a Lua escreve-se em itálico e corresponde aos minutos da Lua. Quando o Sol e a Lua se juntam no céu, os textos sobrepõem-se. “Os espaços em branco são momentos em que não há Lua. Segundo a realidade astronómica, há noites sem Lua e dias com Lua”, afirma Angela Detanico, explicando que é importante ir para além daquilo que está convencionado na nossa sociedade, é importante transpor códigos e perceber que a Lua não é exclusiva da noite nem o Sol é exclusivo do dia.
Também na obra “o dia mais longo, o dia mais
curto”, a dupla mostra “de que forma o tempo se transforma em espaço, e
o espaço em tempo”, adianta Pedro Lapa.
Duas pinturas murais com faixas de diferentes intensidades, do preto ao branco. A graduação de tons corresponde às horas de luz do dia mais longo do ano e do dia mais curto do ano em Lisboa.
Entre as várias peças, pinturas murais, projecções
e instalações, está uma instalação de livros empilhados.
O livro serve como sistema de escrita por empilhamento. A =1, B=2, até formar uma palavra. O objectivo aqui foi “escrever pelo meio de organização das coisas. É o mundo que nos fala”, completou a linguista de profissão, que estuda os desdobramentos da linguagem humana.
Vale a pena visitar a exposição “Amplitude”, no
Museu Colecção Berardo, até dia 28 de Abril, de domingo a sexta-feira das 10:00
às 19:00 e ao sábado das 10:00 às 22:00
São visiveis as influências vanguardistas da arte
digital e do concretismo deste casal que desafia a língua e comunica de forma
muito própria e inovadora, e para quem “a ordem alfabética é uma pura
convenção”.
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