28 de janeiro de 2013

O SÃO JOÃO DA DEGOLA


" Salomé com a cabeça de São João Baptista ", Caravaggio, Palácio Real de Madrid.
Filho de Zacarias, sacerdote judeu, e de Isabel, prima afastada de Maria, mãe de Jesus, São João Baptista, o Precursor (por ter anunciado e preparado a vinda de Cristo), com vinte e quatro anos parte para o deserto em retiro espiritual, alimentando-se apenas de gafanhotos, ervas, raízes, frutos e mel. Mais tarde, baptiza Jesus Cristo nas águas do rio Jordão, na Palestina, apresentando-O ao povo como o Messias.
Foi decapitado no ano 31 a pedido de Salomé, princesa judia, que solicitou a cabeça do santo a seu tio Herodes Antipas – tetrarca da Galileia, que julgou Jesus Cristo. Este pedido, segundo a tradição, terá sido feito por exigência de Herodíade, mãe de Salomé e cunhada de Herodes.
A degolação de São João Baptista é celebrada a 29 de Agosto.
Esta data associa o santo, uma vez mais, aos banhos rituais e profilácticos, assinalados já na celebração do seu nascimento: 24 de Junho.
Com efeito, festas e rituais diversos relacionados com os banhos santos, continuam a verificar-se todos os anos um pouco por todo o país, numa estranha e complexa conjugação em muitas festas e romarias consideradas das mais antigas e populares celebradas entre nós. Avaliando, contudo, a água como um dos elementos essenciais à vida (é ela que envolve desde logo o embrião humano) e também como símbolo do baptismo, ou seja da iniciação e da purificação, será mais fácil reconhecer a sua importância e significado.
Prática precessora de outras mais remotas, com origem nos cultos pagãos em louvor das ninfas e outras divindades pré-romanas das águas, há quem a relacione com o culto a Ártemis, deusa grega das florestas, das montanhas e dos animais selvagens (a Diana dos Romanos), que gostava de banhar-se nas águas dos rios e das fontes e cujos templos ficavam sempre junto dos charcos e dos lameiros, ou ainda a Neptuno, deus do mar (na Grécia Posídon).
O banho santo mantido e difundido pela devoção popular e aceite pelo cristianismo (conquanto sujeito a várias perseguições, pelo menos desde o século IV e que prosseguiram pela Idade Média), continua a usufruir de toda a devoção de uma sociedade, ontem predominantemente rural, hoje a incluir uma vertente cada vez mais urbana. Muitas festas, romarias ou simplesmente datas cíclicas do calendário circunscritas apenas à consumação de práticas rituais, incluem banhos considerados purificadores e profilácticos, tanto em fontes, como nos rios ou no mar, de pessoas e animais, principalmente rebanhos de cabras e de ovelhas levados pelos seus pastores.
Se bem que as sociedades modernas tenham adoptado e aplicado os banhos santos a outras datas igualmente festivas, que não aquelas remotamente estabelecidas pela tradição – supostamente, no sentido de os recriar ou de os recuperar – em particular na noite da passagem do ano, com os banhos purificadores tomados à meia-noite ou de madrugada (por exemplo em Lisboa, nas praias da costa do Estoril, e noutras praias onde o costume se enraizou).
Tradicionalmente, as datas são três: no dia de São João (24 de Junho), no dia de São Bartolomeu (24 de Agosto) e no dia da degolação de São João (29 de Agosto). De acordo com a tradição, os banhos devem ser tomados na véspera à meia-noite, ou de madrugada, em jejum, antes de nascer o Sol, altura em que a água, segundo a crença do povo, «é considerada benta». A circunstância de duas das datas coincidirem, uma com o nascimento de São João e a outra com a sua morte, poderá estar associada ao facto bíblico de São João Baptista ter baptizado Jesus Cristo nas águas do rio Jordão.
No Algarve, o banho continua a ter lugar, preferencialmente, no dia 29 de Agosto, valendo «por nove e curando o reumatismo» (costume que se supõe, herdado dos Árabes, que tomavam o banho profiláctico de mar nesta mesma data).
Na praia da Manta Rota (Vila Real de Santo António), o «banho da degola» (recuperado nos últimos anos) é tomado de manhã, antes de nascer o Sol, com os grupos de participantes vestidos como os antigos banhistas da região: elas em combinação, eles de ceroulas até ao joelho, a deslocarem-se, alguns deles, montados em burros e munidos de merendas destinadas ao piquenique que terá lugar logo depois. Em Lagos a tradição repete-se nos mesmos moldes (recuperada também ela há poucos anos), com o banho tomado no dia 29.
Na serra algarvia de Monchique os banhos santos têm lugar não a 29 de Agosto, mas de 28 para 29 de Setembro. A razão da mudança de data vamos apenas encontrá-la na seguinte informação dos mais velhos: “desde que se lembram, sempre assim foi”. Por isso, no final do dia 28, descem da serra até à praia as crianças das escolas, acompanhadas de grupos de adultos, para o «banho do 29», vestidas, por vezes, com fatos de banho a imitar os modelos antigos, sendo o banho tomado à meia-noite em ponto. Ainda aqui, sem esquecer a merenda…
O «famoso banho do 29» não se limitava apenas ao Algarve. Também em certas localidades da Beira Baixa e mesmo no Minho se verificava, no dia 29 de Agosto, o banho santo de pessoas e animais.
Para além das habituais comemorações litúrgicas desta data, continua a ser no Algarve que a tradição mais se faz cumprir. Não já nos moldes de outrora, mas com as celebrações populares a perdurarem ainda com alguma animação. Por isso, em Aljezur, o feriado municipal recai no dia 29 de Agosto – assinalando assim, condignamente, em terras algarvias, o «São João da Degola».
Soledade Martinho Costa
Do livro "Festas e Tradições Portuguesas", Vol. VI

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