5 de outubro de 2012

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Detalhe da imagem de Gérard Jean-Baptiste (1671-1716), Ville de Lisbonne et Flote des Indes, na Histoire des découvertes et conquestes des Portugais dans le Nouveau Monde de Joseph-François Lafiteau,(1681-1746). Paris 1734 BnF (1)


Costumam os Arquitectos quando intentão levantar algüa fabrica, debuxala primeiro em hüa pequena traça, para depois se acertar melhor o edifício.” (Manoel Severim de Faria Discursos vários políticos 1614)
Esta frase, com que Manoel Severim de Faria abre o seu livro, serve para justificar este post, que é também uma aproximação, quase uma mera recolha de dados, a um futuro texto mais organizado e completo. Procurou-se ilustrar os textos sobre Lisboa do tempo dos Filipes, com imagens contemporâneas, ou pelo menos do século XVII, embora naturalmente com algumas excepções.
Notas sobre o Portugal do século XVII
Se o Barroco se difunde ao longo do século XVII, a partir de Roma para os diversos países europeus e suas colónias, assumindo é certo em cada um deles características próprias, em Portugal as circunstâncias políticas não permitiram canalizar grandes somas de dinheiro para as obras de prestígio, civis e mesmo religiosas. O século XVII em Portugal, pode dividir-se em três períodos: Um primeiro que corresponde ao domínio espanhol (1580-1640) e à transição do Renascimento para o Barroco. Um segundo período da guerra da Restauração (1640-1668) e as suas consequências nas colónias, em que a coroa portuguesa se preocupa sobretudo com a fortificação e defesa das fronteiras de Portugal e colónias. E um terceiro entre 1668 e 1706, e que corresponde, à regência (1668) e ao reinado (1683) de D. Pedro II (1648-1706), após o afastamento do irmão Afonso VI. E se é certo que, sobretudo pela acção da Igreja o Barroco vai sendo introduzido em Portugal, de facto, só no século XVIII, com o reinado de D. João V, se pode propriamente falar de uma intervenção na cidade, de um urbanismo e até de uma arte barroco ou tardo-barroco.

Deambulações pela Lisboa Filipina a partir de alguns textos da época (*)
(*) Sobre Lisboa no século XVII indispensável ler: Lisboa Setecentista de Fernando Castelo-Branco de 1956 e publicado em sucessivas edições, a quarta em Livros do Horizonte, Lisboa 1990; o clássico de Júlio Castilho (1840-1919), A Ribeira de Lisboa, descripção histórica da margem do Tejo desde a Madre de Deus até Santos-o-Velho, Lisboa, 1893; e o texto de Vítor Serrão Lisboa Maneirista oito notas a propósito da imagem da cidade nos anos 1557-1668 in O Livro de Lisboa, coordenação de Irisalva Moita, Livros do Horizonte 1994.
Lisboa, ao longo do século XVI, com a Expansão tem um notável crescimento, de que resulta pela acção de D. Manuel (**) uma adaptação a essas novas condições de grande cidade, uma das maiores da Europa e certamente a maior da península Ibérica.
(**) Sobre Lisboa Manuelina ler de Helder Carita “Lisboa Manuelina e a formação de modelos urbanísticos da época moderna (1495-1521)” Livros Horizonte, Lisboa 1999
Um desenho de Johann Putsch (1516-1542), mas divulgado por Sebastian Münster (1489-1552) na sua Cosmographia, publicada em 1550 mas com sucessivas edições até 1628, apresenta um imagem Europa Regina, em que o continente europeu orientado no sentido nascente-poente, é representado como uma rainha cuja cabeça coroada é a Península Ibérica, o braço direito a Itália que segura na mão a esfera que é a Sicília e o braço esquerdo a Dinamarca, segurando um septo onde a Inglaterra surge como flâmula. (ver Paulo Pereira - Discurso proferido no simpósio internacional »Novos Mundos – Neue Welten. Portugal e a Época dos Descobrimentos« no Deutsches Historisches Museum, em Berlim, 23 a 25 de Novembro de 2006).
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Sebastian Münster (1489-1552) Europa Regina 26 x 16 cm. in Cosmographia Basel 1598.
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Camões no Canto III, de Os Lusíadas, parece conhecer esta representação quando escreve:

Est.17
Eis aqui se descobre a nobre Espanha,/Como cabeça ali de Europa toda,/Em cujo senhorio e glória estranha/Muitas voltas tem dado a fatal roda;/Mas nunca poderá, com força ou manha,/A Fortuna inquieta pôr-lhe noda/Que lha não tire o esforço e ousadia/Dos belicosos peitos que em si cria.
E de seguida referindo Portugal:
Est. 20
Eis aqui, quási cume da cabeça/De Europa toda, o Reino Lusitano,/Onde a terra se acaba e o mar começa/E onde Febo repousa no Oceano./Este quis o Céu justo que floreça/Nas armas contra o torpe Mauritano,/Deitando-o de si fora; e lá na ardente/África estar quieto o não consente.
Lisboa nos finais do século XVI
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OLISIPPO 1590 Lisabona. - [Escala não determinada]. - [S.l. : s.n., 15--]. - 1 pl. : gravura, p&b ; 28,90 ,20 cm http://purl.pt/1420. - O exemplar, C.C. 142 P2, apresenta duas cotas antigas inscritas no verso.. - Na parte inferior contém uma legenda em latim BND Portugal
E Camões no mesmo Canto III, de Os Lusíadas, enaltece a importância e a grandeza de Lisboa, chamando-lhe princesa das outras cidades do mundo:
Est. 57
E tu, nobre Lisboa, que no mundo/Facilmente das outras és princesa,/Que edificada foste do facundo/Por cujo engano foi Dardânia acesa;/Tu, a quem obedece o Mar profundo,/Obedeceste à força Portuguesa,/Ajudada também da forte armada/Que das Boreais partes foi mandada.
Outros autores quinhentistas apontam este crescimento e cosmopolitismo de Lisboa mas apontando também, a decadência moral trazida por esta súbita riqueza, como António Ferreira (1528-1569) o autor de A Castro, nos seus Poemas Lusitanos, (publicados em 1598, pelo seu filho Miguel Leite Ferreira), já se refere ao crescimento de Lisboa dos meados do século XVI. No livro onde um conjunto de poemas assume a forma de Cartas, na Carta X, dirigida A Manoel Sampayo em Coimbra
Esta Cidade, em que nasci, fermosa/Esta nobre, esta chea, esta Lisboa/em Africa, Asia, Europa tão famosa,/quam differente a vejo, do que a ve/O sprito enganado, que no ar voa!





E Pedro de Andrade Caminha, (1520-1589) na Oda VII dedicada a Francisco de Sá de Miranda, Louvarão muitos esta gram Cidade,/Esta nobre Lisboa,/Raro Francisco, esta que do Ocidente/Com grande nome em toda parte soa,/E soará com grão nome em toda idade,/Que dá Leis ó Meio dia, e ó Oriente.//Seus espantos verão, suas grandezas,/Seus nobres edifícios/D’obra antiga e moderna, as variedades/Dos estados, das obras, dos officios,/Dos negócios, dos tratos, das riquezas,/Dos costumes, das Leis, e das vontades.//Com alegre louvor verão partidas/Daqui armadas nossas,/Prosperas as verão depois entradas/Cheas de mil despojos, presas grossas,/Com bandeiras triumphaes ó Ceo erguidas,/Com bandeiras d'immigos derribadas.
(ver Helena Rocha Pereira Uma Descrição Poética da Lisboa Quinhentista, Comunicação apresentada ao Congresso Internacional dos Descobrimentos Portugueses e a Europa do Renascimento”,Fundação Calouste Gulbenkian, 1983
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Theodor de Bry (1528-1598) Lisboa in Americae Tertia Pars, 1562, Encyclopædia Britannica

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