« Santa Margarida do Sado: Uma terra à beira da estrada ...

Santa Margarida do Sado, no concelho de Ferreira
do Alentejo, habituou-‑se ao movimento que todos os dias cruza a localidade. Na
N259/IP8 não há tempos mortos. Um corrupio. Junto à terra começaram a erguer-se
as estruturas da A26, mas a obra parou e a autoestrada ficou inacabada. Uma
terra com os olhos postos nas
estradas.
Texto Bruna Soares Fotos José Serrano
Os carros continuam a passar ininterruptamente na estrada. Uns atrás dos outros. Apenas abrandam a velocidade à entrada de Santa Margarida do Sado, a localidade que aprendeu a virar-se para o interior e para o litoral, consoante a necessidade. Pertence ao concelho de Ferreira do Alentejo, mas tem fortes ligações a Grândola, até porque pouco mais de 20 quilómetros separam as duas terras.
António Parreira e Avelino Isidro voltam as costas ao trânsito que passa na N259/IP8. Não lhes interessa os que atravessam a localidade e procuram o sentido Beja, Sines, Lisboa, entre tantos outros. Em compensação, admiram o que existe da A26, que entretanto tem os trabalhos suspensos.
Da aldeia não é difícil avistar os pilares da nova ponte. Aliás estão ali, à vista de todos, a metros do casario.
“Tudo parado. Tudo por acabar”, diz António, enquanto Avelino responde: “Não se vê por aí movimento. Não se avista ali ninguém a trabalhar”. As máquinas, segundo os homens, foram levadas pelos trabalhadores que não voltaram. Depois veio o anúncio da suspensão das obras e acabaram-se as dúvidas.
“Se for construída, talvez no princípio, tire movimento a Santa Margarida do Sado”, considera António, mas rapidamente acrescenta: “Quem nela andar terá de pagar e não há dinheiro para isso”.
Os carros e os camiões continuam a passar. Quem ousa atravessar a N259 tem de esperar uns minutos. A espera necessária para que os semáforos façam parar os condutores. António e Avelino continuam sentados com a colheita que trouxeram das suas hortas aos pés. Couves, cebolas e melancia. As galinhas, que alimentam todos os dias, também foram generosas. Para casa, no balde, ainda levam uns ovinhos. “Entretemo-nos assim. É uma boa ajuda ao sustento”, diz Avelino Isidro.
Do outro lado da estrada avistam-se os comércios que a ela se abeiraram, embora sejam em pouco número. Manuel Maria foi um dos que resolveu investir. “O comércio aqui pouco se desenvolveu. Existe o que existia há 20 anos”. Curiosamente, apesar da crise, há hoje, de acordo com Manuel Maria, “mais gente a parar em Santa Margarida do Sado”. E a explicação, essa, em sua opinião, é simples: “Ao longo dos anos aumentou o número de pessoas que têm interesse em deslocar-se para o Alentejo, para o interior”.
A paragem na A26 afetou, porém, o negócio de Manuel Maria. “Os fregueses diminuíram. Nota-se menos movimento por estas paragens. Os trabalhadores sempre circulavam por aqui e consumiam. Vinham com frequência”. Mas a A26, afinal, é, para os comerciantes, como se costuma dizer, “um pau de dois bicos”. “Se for construída diminuiria o movimento na terra, o que traria menos gente aos estabelecimentos”. O comerciante, contudo, tem esperança na qualidade dos produtos e na rotina dos fregueses. “Julgo que alguns clientes continuariam a passar. Tomaram o hábito de cá vir. Temos produtos nossos, como é o caso dos torresmos, empadas, popias e queijadas. São produtos que se vendem muito bem e que agradam às pessoas”.
As nuvens dão lugar ao sol e a hora de almoço aproxima-se. Os carros começam a parar. Manuel deixa a conversa e atende ao balcão. Por esta hora, já Emília Ventura, habitante de Santa Margarida do Sado, tem o almoço feito. Descansa à sombra de uma árvore de copa larga. Há mais de 40 anos que conhece este chão. Tomou esta como a sua terra, mas garante que, em muitas coisas, como é o caso do emprego, está pior. “Havia trabalho para todos e hoje não se ganha aqui um tostão. Trabalhei na agricultura, fazia um pouco de tudo. Se o Estado não desse tanto subsídio a agricultura continuava a dar”, defende. Agora, segundo Emília Ventura, apenas no tempo “da cortiça e da pinha” é que alguém “arranja trabalho”, e temporariamente.
A mulher volta a falar da paragem na A26 e adianta: “Agora ainda há aí mais gente desempregada. Não é que trabalhassem lá muitos, mas com a obra parada, ficaram pior”. A mulher reconhece que a autoestrada servia “a região”, no entanto, em sua opinião, muita gente continuaria a optar pela estrada que atravessa Santa Margarida. “As pessoas fogem às portagens”, considera.
À sombra de uma outra árvore, Francisco Umbelino e Silvino Guerreiro matam o tempo, até que a fome aperte e tenham de ir matar o “bicho”. Sentem-se bem em Santa Margarida do Sado e contam que muita gente “tem por cá ficado”. Já houve, segundo dizem, mais trabalho na terra, mas isso foi no tempo em que os campos de arroz empregavam muita gente. “Vieram as máquinas e isso acabou”, diz Francisco. “Há aí alguma coisa, mas pouco”, completa Silvino.
A hora de almoço chega e com ela recolhem-se os poucos que se passeiam pelas ruas. Na estrada, na N259/IP8, continuam a passar os carros. E a A26 repousa, inacabada. À espera de melhores dias. O “Diário do Alentejo” tentou contactar, até ao fecho desta edição, quarta-feira, o presidente da Junta de Freguesia de Figueira dos Cavaleiros, à qual pertence a localidade, mas até à data não foi possível.

Coudelaria de Santa Margarida
Na região de Santa Margarida do Sado, nomeadamente no Monte da Sernadinha, existe uma coudelaria que recebe o nome de Santa Margarida. Fundada em 1983, dedica-se à criação de cavalos Puro Sangue Lusitano. De acordo com o site da coudelaria, “com o objetivo de garantir a qualidade ao mais alto nível, selecionou rigorosamente os reprodutores, tais como Universo, Opus-72 e Spartacus, este último produto da coudelaria”. “O grau de exigência posto na escolha das éguas reprodutoras é de igual nível relativamente aos dos reprodutores masculinos”. A Coudelaria de Santa Margarida continua a somar prémios em diversos concursos.
Zona ribeirinha
Foram vários os arranjos efetuados na zona ribeirinha. O espaço ajardinado, com parque infantil e de merendas, proporciona aos habitantes e visitantes zonas de lazer. Este local pretende ainda incentivar ao convívio e, ao mesmo tempo, aproximar as pessoas da zona ribeirinha.

Património
A Igreja Matriz de Santa Margarida do Sado, do século XVI, é constituída por nave e capela-mor. Destaca-se pelos elementos romanos funerários que foram encontrados, em forma de pipa, e que atualmente podem ser apreciados no local.
Na região de Santa Margarida do Sado, nomeadamente no Monte da Sernadinha, existe uma coudelaria que recebe o nome de Santa Margarida. Fundada em 1983, dedica-se à criação de cavalos Puro Sangue Lusitano. De acordo com o site da coudelaria, “com o objetivo de garantir a qualidade ao mais alto nível, selecionou rigorosamente os reprodutores, tais como Universo, Opus-72 e Spartacus, este último produto da coudelaria”. “O grau de exigência posto na escolha das éguas reprodutoras é de igual nível relativamente aos dos reprodutores masculinos”. A Coudelaria de Santa Margarida continua a somar prémios em diversos concursos.
Zona ribeirinha
Foram vários os arranjos efetuados na zona ribeirinha. O espaço ajardinado, com parque infantil e de merendas, proporciona aos habitantes e visitantes zonas de lazer. Este local pretende ainda incentivar ao convívio e, ao mesmo tempo, aproximar as pessoas da zona ribeirinha.

Património
A Igreja Matriz de Santa Margarida do Sado, do século XVI, é constituída por nave e capela-mor. Destaca-se pelos elementos romanos funerários que foram encontrados, em forma de pipa, e que atualmente podem ser apreciados no local.
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